SOS NATUREZA: O bota-fora volta a assombrar Itapecerica da Serra

Você escolheria um vale com inclinação de 40 graus para construir um Centro de Esportes e Eventos, onde seria preciso despejar três milhões de metros cúbicos de terra para torná-lo plano e construir quadras esportivas? Pois essa é a proposta de “empresários” que atuam em Itapecerica da Serra, uma proposta no mínimo antieconômica, que, além disso, fere duas Leis Federais (Estatuto das Cidades e a Lei da Mata Atlântica), uma Lei Estadual (Lei Específica da Guarapiranga) e o Plano Diretor do Município de Itapecerica da Serra. Estamos falando do famoso Bota-Fora do Jardim das Palmeiras, que fica num dos vales da Serra de Itaquaciara, uma cadeia de morros, onde estão alguns dos pontos mais altos da cidade, que funcionam como cabeceiras de drenagem e distribuem águas pluviais para a Bacia Hidrográfica do Embu Mirim, um dos rios mais importantes da Bacia da Guarapiranga. Somente essa característica hidro geográfica e o serviço ambiental decorrente já seriam suficientes para brecar esse “empreendimento” esdrúxulo, além dos impedimentos legais citados. Mas, pasmem, o local foi contemplado com um licenciamento ambiental do órgão licenciador, a Cetesb. Por sua ilegalidade, essa questão já rendeu matérias na grande imprensa, mas não só isso. A pressão popular, ligada ao movimento ambiental Preservar Itapecerica e à Associação de Moradores do Jardim Petrópolis, conseguiu que fosse instaurada em 2019 uma CEI – Comissão Especial de Inquérito na Câmara Municipal, que levantou inúmeras irregularidades, com envolvimento de servidores públicos. Mas a CEI foi esvaziada pela ação do então Secretário do Meio Ambiente, Cláudio Silvestre Júnior, que acusou arbitrariamente o presidente da CEI de motivações políticas. Mas por que tanto interesse? O que a população precisa saber é que essa movimentação de terra geraria, por baixo, um faturamento de R$ 75 milhões em quatro anos, com a atividade de aterramento, ou seja, ganhando dinheiro com as 250 mil viagens de caminhão que despejariam terra, entulho e lixo no vale, ou seja, material contaminante em nossos mananciais. Essa sim a verdadeira motivação “empresarial”, disfarçado de “Centro de Espores e Eventos”, para justificar o licenciamento irresponsável da Cetesb. Para piorar, na última reunião do Conselho Municipal do Meio Ambiente, em 27/04/2021, o atual Secretário do Meio Ambiente Gilberto Pascom, que vem demonstrando comprometimento com as questões ambientais, talvez mal assessorado, apresentou aos munícipes a proposta de retomada das conversas sobre o bota-fora com os “empresários”, chegando a citar a construção de uma “ciclovia” para compensação ambiental, algo no mínimo, insignificante diante de três milhões de metros cúbicos de terra. Parece brincadeira. O Jardim das Palmeiras é um santuário de nossos mananciais, com a presença de inúmeros animais silvestres, que está sendo destruído antes mesmo de conhecermos sua biodiversidade, bola da vez nos loteamentos clandestinos e agora, reaparece essa assombração. O movimento ambiental organizado está forte e instrumentalizado e manda um recado: não vamos permitir, somos fábrica das águas, não somos lata de lixo.

 

*por: Adriana Abelhão

 

*foto: Arquivo Preservar Itapecerica

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